Falando em Educação

13 de abril de 2026

Educação é um tema muito amplo, e ao falarmos sobre educação infantil a reflexão é ainda maior. Segundo John Dewey, “A educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida, é a própria vida”. Afinal, se educação é a vida, como preparar as crianças para a vida?

Tive oportunidade de trabalhar com educação em dois universos distintos entre si, Estados Unidos um país desenvolvido e economicamente forte e Brasil um país em desenvolvimento com políticas econômicas e sociais ainda engatinhando.

Nos EUA geralmente as escolas de educação infantil são espaçosas, com pátio grande e salas de aulas amplas e moduladas com ambientes onde a criança pode explorar diversas áreas e brincar com artes, ciências, matemática, fantasias, blocos, entre outras atividades. ela pode aprender em qualquer ambiente, seja em sala de aula, playground, ou outro lugar distinto. O professor é preparado para ser o facilitador deste brincar sempre tentando promover o pensar e autonomia da criança. Desta forma temos uma visão holística da criança no que se refere ao seu desenvolvimento cognitivo, físico, emocional e social. Os professores geralmente se relacionam de forma positiva com a criança, seja na descoberta ou despertar de um aprendizado novo, e também fazer a criança compreender quando ela teve um comportamentos inadequados. Isso ajuda a criança a entender de forma efetiva seus pensamentos, comportamentos, e o mundo. Sendo isso um processo para uma vida adulta mais saudável, confiante e consciente. Mas afinal o que é relacionamento positivo? É guiar a criança para a solução de um problema de forma que ela se sinta valorizada e compreendida. Alguns exemplos de como se relacionar positivamente com as crianças: Elogiar a criança quando ela conseguiu realizar uma atividade e dizer que ela deve se orgulhar por ter conseguido fazer o que ela se propôs a fazer. Em caso a criança esteja em dificuldade, o professor pode dizer que está observando que ela está com dificuldade em realizar a tarefa, mas tem certeza que ela conseguirá fazer, talvez dar uma pequena pista de que existe outra forma de realizar a tarefa. Em caso de comportamento inadequado o professor se aproxima da criança e diz que compreende a frustração dela, mas que atirar um brinquedo no chão por exemplo não a ajudará a solucionar o problema, talvez seja hora de procurar uma outra atividade e quando estiver mais calma ela pode tentar novamente. O professor avisa a criança que caso ela precise de ajuda ele estará lá para ajudá-la. A liberdade de brincar com uma diversidade de atividades e brinquedos a criança se solta e o professor consegue observar melhor individualmente cada criança. Através desta observação é possível desenvolver

atividades que a criança está interessada, a criança fica mais motivada em aprender quando o assunto é de seu interesse facilitando o processo de desenvolvimento das habilidades. É importante frisar que o processo em realizar uma atividade é mais importante que o produto final. A bagunça, sujeira, bem a organização também fazem parte deste processo de aprendizagem. Desta forma a criança desde cedo aprende responsabilidade, autonomia, tomar decisões, solucionar problemas, e auto regular-se.

No Brasil tenho acompanhado a grande luta dos professores em promover uma educação de qualidade, a dificuldade financeira em investir em educação, falta de espaço, materiais e qualificação do professor. Ainda é possível ver sala de aula de crianças de 0 a 5 de idade com espaço limitado para brincar, equipamentos e brinquedos não adequados para a faixa etária e uma educação mais voltada ao produto do que o processo, gerando frustrações. Geralmente as atividades são direcionadas e semi prontas onde a criança não precisa de muita criatividade. Quanto mais a atividade é unificada a todos os alunos, maior é a dificuldade do professor em observar as vicissitudes de cada criança. É comum ouvir os discursos das escolas que estão preparando a criança para uma vida acadêmica focando no processo de ler e escrever, porém não existirá esta aprendizagem se a criança não se sentir inserida neste processo e se não existir a preocupação em desenvolver primeiro a coordenação motora, visão espacial, comunicação, autonomia, etc. As leis de diretrizes e bases da educação infantil no Brasil são coerentes, pelo menos no papel, mas pouco aplicáveis. Infelizmente a criança ainda tem um papel de coadjuvante na sua própria educação.

Um exemplo caro e bastante curioso, quando se pesquisa no Google em portugues atividades de coordenação motora, quase que 50% das atividades são para imprimir e entregar a criança, com linha para a criança colocar o nome e data, mas se fizer a mesma pesquisa em inglês não aparecem atividades prontas, são atividades muitas vezes simples a serem desenvolvidas usando materiais de baixo custo como recicláveis, cordas, papel, papelão, entre outros.

No meu ponto de vista não existe um mundo perfeito e com um sistema educacional que garanta um futuro brilhante para todas as crianças, mas é possível observar que os países que têm um melhor sistema educacional são aqueles que envolvem a criança no processo como seres ativos e capazes, focam na qualidade do ensino, estratégias positivas, sociais e emocionais. Essas estratégias ajudam a criança a desenvolver habilidades que levam para a vida toda. Estes países também investem na qualificação do educador, novas tecnologias e constante revisão do processo educacional. Não é preciso dizer que quanto mais educado um país se torna, melhor é sua economia e melhor é a qualidade de vida de seus cidadãos, mas claro que podemos deixar para discutir isso em uma outra oportunidade.